Por Alessandro dos Reis
Poucos filmes conseguem falar sobre carreira, poder, liderança e ambiente empresarial de uma forma tão interessante quanto O Diabo Veste Prada.
O primeiro filme nos apresentou um universo extremamente competitivo, no qual resultados, imagem, influência e excelência profissional parecem justificar praticamente qualquer sacrifício. A continuação nos permite revisitar essas questões sob uma perspectiva ainda mais atual: empresas mudam, mercados se transformam, novas gerações chegam e aquilo que funcionava ontem pode não funcionar amanhã.
Mas, para mim, a grande discussão vai muito além da moda.
Quando observo essa história com a visão de contador, economista e empresário, vejo uma verdadeira aula sobre gestão de pessoas, liderança, estratégia e sobrevivência empresarial.
Miranda Priestly não administra apenas uma revista. Ela administra valor.
Miranda representa uma liderança extremamente orientada para resultado.
Ela conhece profundamente seu mercado, entende sua marca, sabe o valor de sua posição e percebe movimentos que outras pessoas ainda não enxergaram.
Essa é uma característica importante de qualquer grande empresário.
O empreendedor precisa desenvolver a capacidade de enxergar além do presente.
Na economia, trabalhamos constantemente com expectativas. Uma decisão tomada hoje normalmente produzirá seus principais efeitos no futuro.
Na contabilidade acontece algo semelhante.
Os números que aparecem em um balanço são, muitas vezes, consequência de decisões tomadas meses ou até anos antes.
Por isso, considero que gestão é, essencialmente, a capacidade de tomar boas decisões antes que os números mostrem que elas eram necessárias.
Miranda possui essa capacidade.
Mas existe outro lado.
Resultado sem pessoas tem prazo de validade
Durante muitos anos, empresas foram administradas praticamente com uma única lógica:
“Eu pago. Você trabalha.”
Esse modelo está desaparecendo.
Salário continua sendo fundamental, naturalmente. Mas profissionais também procuram reconhecimento, desenvolvimento, ambiente, propósito, autonomia e qualidade de vida.
E aqui encontramos talvez a maior fragilidade do modelo de liderança apresentado no primeiro O Diabo Veste Prada.
Miranda consegue extrair resultados extraordinários das pessoas.
A pergunta é:
A que custo?
Uma empresa pode apresentar excelentes resultados financeiros e, simultaneamente, estar destruindo seu capital humano.
E isso nem sempre aparece imediatamente na contabilidade.
Não existe uma linha na DRE chamada:
“Perda de talentos por liderança inadequada.”
Mas o custo existe.
Ele aparece depois.
Surge no turnover.
Na queda de produtividade.
Nos erros.
No absenteísmo.
Na dificuldade de contratar bons profissionais.
Na perda de conhecimento.
E, principalmente, na perda das pessoas que poderiam construir o futuro daquela organização.
Andy representa algo que todo empresário precisa entender
Andy entra naquele ambiente praticamente sem conhecer o mercado da moda.
Inicialmente, ela não entende a cultura da empresa, não domina os códigos daquele setor e aparentemente não possui o perfil esperado.
Mas aprende.
E aprende rapidamente.
Esse é um ponto extremamente importante para quem lidera empresas.
Muitas vezes procuramos profissionais prontos.
Só que profissionais excelentes também podem ser formados dentro da organização.
Talento não é apenas aquilo que uma pessoa sabe hoje.
Talento também é sua capacidade de aprender amanhã.
Por isso, quando avalio alguém profissionalmente, considero cada vez mais importante observar três características:
capacidade de aprender, capacidade de adaptação e comprometimento.
Conhecimento técnico pode ser desenvolvido.
Comportamento e disposição para evoluir são muito mais difíceis de construir.
O problema começa quando o profissional precisa deixar de ser quem é
Andy cresce profissionalmente.
Melhora sua imagem.
Entende o negócio.
Aprende a antecipar problemas.
Torna-se eficiente.
Começa a pensar antes que Miranda peça.
Isso é fantástico do ponto de vista profissional.
Todo empresário gostaria de ter pessoas assim em sua equipe.
Mas existe uma linha muito delicada entre desenvolvimento profissional e perda de identidade.
E o filme mostra isso muito bem.
Quando o sucesso profissional começa a exigir que a pessoa abandone completamente sua vida, seus relacionamentos e seus valores, alguma coisa precisa ser revista.
Esse aprendizado vale também para nós, empresários.
Precisamos de resultados.
Precisamos de produtividade.
Precisamos de comprometimento.
Mas precisamos lembrar que estamos liderando seres humanos.
A empresa moderna precisa substituir controle por confiança
Existe uma transformação acontecendo silenciosamente no mundo empresarial.
O gestor tradicional perguntava:
“Como posso controlar melhor minha equipe?”
O gestor moderno deveria perguntar:
“Como posso criar uma equipe que precise cada vez menos ser controlada?”
Essa mudança parece pequena, mas é gigantesca.
Controle excessivo cria dependência.
Processos bem definidos criam autonomia.
Treinamento cria segurança.
Tecnologia cria produtividade.
Indicadores criam transparência.
E confiança cria responsabilidade.
É justamente nesse ponto que minha visão contábil se encontra com minha visão empresarial.
Sempre acreditei que contabilidade não deveria servir apenas para registrar aquilo que aconteceu.
Ela precisa ajudar o empresário a entender o que está acontecendo e o que provavelmente acontecerá.
O mesmo vale para gestão de pessoas.
O líder não deveria descobrir que perdeu um grande profissional no dia em que recebe o pedido de demissão.
Os sinais normalmente apareceram muito antes.
Liderança não significa ser querido o tempo inteiro
Também seria um erro interpretar O Diabo Veste Prada como uma defesa de uma liderança excessivamente permissiva.
Liderar envolve decisões difíceis.
Em alguns momentos, alguém ficará insatisfeito.
Metas precisam existir.
Resultados precisam ser cobrados.
Pessoas precisam ser responsabilizadas.
Empresas precisam gerar lucro.
Sem resultado econômico não existe emprego sustentável, investimento, crescimento ou inovação.
Essa é uma realidade que às vezes esquecemos quando discutimos gestão de pessoas.
Uma empresa não pode ser apenas um excelente lugar para trabalhar.
Ela precisa ser também um excelente negócio.
O verdadeiro desafio está em conseguir as duas coisas.
A melhor empresa não é aquela que depende do empresário
Ao longo da minha experiência empresarial, passei a acreditar cada vez mais em uma ideia:
O crescimento de uma empresa começa quando o empresário deixa de ser indispensável para tudo.
Enquanto todas as decisões precisarem passar pelo dono, existe um limite físico para o crescimento.
O dia continuará tendo 24 horas.
Por isso, crescer significa criar processos, desenvolver lideranças, investir em tecnologia e formar pessoas capazes de tomar boas decisões.
O empresário precisa deixar de ser apenas aquele que resolve problemas.
Precisa se tornar aquele que constrói pessoas e sistemas capazes de resolver problemas.
Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre ter um emprego dentro da própria empresa e realmente construir uma organização.
Do primeiro filme para o segundo: o mercado também envelhece
Existe ainda outra reflexão importante quando colocamos as duas histórias lado a lado.
Nenhuma posição de liderança é eterna.
Nenhuma empresa é invencível.
Nenhuma marca pode viver indefinidamente apenas daquilo que construiu no passado.
Economicamente, mercados são ciclos.
Tecnologias surgem.
Hábitos de consumo mudam.
Novos concorrentes aparecem.
Profissionais mudam suas prioridades.
E modelos de gestão que produziram resultados extraordinários durante décadas podem começar a apresentar sinais de esgotamento.
Por isso, talvez a maior pergunta que um empresário deva fazer constantemente seja:
“Se eu estivesse criando minha empresa hoje, faria tudo exatamente como faço atualmente?”
Se a resposta for não, provavelmente existe alguma mudança que já deveria ter começado.
O verdadeiro patrimônio de uma empresa
Como contador, aprendi a olhar patrimônio através dos números.
Ativos.
Passivos.
Capital.
Resultados.
Fluxo de caixa.
Como empresário, aprendi que existe outro patrimônio que não aparece integralmente no balanço:
as pessoas.
Uma empresa pode perder máquinas e comprar outras.
Pode trocar sistemas.
Pode mudar de endereço.
Pode conseguir novos financiamentos.
Mas quando perde pessoas que carregam conhecimento, cultura, relacionamento com clientes e capacidade de execução, muitas vezes perde algo muito mais difícil de reconstruir.
Por isso, liderança não é simplesmente mandar.
Liderar é criar condições para que pessoas comuns consigam produzir resultados extraordinários juntas.
A principal lição de O Diabo Veste Prada
Miranda Priestly representa competência, exigência, visão estratégica e uma enorme capacidade de compreender seu mercado.
Características que qualquer empresário deveria admirar.
Mas sua liderança também nos apresenta um alerta.
Excelência sem equilíbrio cobra seu preço.
O grande líder não deveria precisar escolher entre pessoas e resultados.
Seu verdadeiro trabalho é construir um ambiente no qual as pessoas sejam justamente a razão pela qual os resultados acontecem.
Depois de quase três décadas trabalhando com empresas, números, empresários e equipes, minha percepção é cada vez mais simples:
Empresas não crescem porque possuem bons computadores, escritórios bonitos ou excelentes sistemas.
Tudo isso ajuda.
Mas empresas crescem quando conseguem reunir boas pessoas, criar processos inteligentes, utilizar tecnologia, desenvolver lideranças e construir uma cultura na qual todos entendam para onde estão indo.
No final, talvez essa seja a maior lição empresarial por trás de O Diabo Veste Prada:
O poder pode fazer as pessoas obedecerem.
A liderança faz as pessoas acreditarem.
E empresas realmente extraordinárias precisam muito mais da segunda opção.
